
A tão aguardada reforma tributária chegou com a promessa de simplificar o sistema, mas o período de adaptação até 2033 pode se transformar em um terreno repleto de riscos para empresas despreparadas. Durante essa fase, os tributos atuais (ICMS, ISS, PIS e Cofins) irão coexistir com os novos (IBS e CBS). Na teoria, trata-se de uma transição gradual; na prática, entretanto, a sobreposição pode resultar em um sistema ainda mais complexo.
Um dos principais pontos de atenção é o risco de bitributação. A convivência entre tributos antigos e novos pode gerar cobranças duplicadas, prejudicando especialmente os setores de margens reduzidas, em que qualquer aumento de custos ameaça a sustentabilidade financeira. Nesse contexto, o contador assume papel central: identificar riscos, simular cenários e prevenir pagamentos acima do necessário.
Outro desafio relevante é a adaptação dos sistemas de gestão. Os ERPs terão de operar com duas lógicas tributárias em paralelo, o que exige atualização tecnológica, treinamento de equipes e maior investimento em compliance. Empresas que demorarem a se preparar podem enfrentar não apenas gastos extras, mas também riscos de autuação e perdas financeiras decorrentes da burocracia ampliada.
Os contratos de longo prazo também estão no radar. Mudanças na carga tributária durante sua vigência podem comprometer o equilíbrio econômico-financeiro do negócio. Sem cláusulas de revisão, muitas empresas podem acabar absorvendo custos que deveriam ser compartilhados ou renegociados. Mais uma vez, a contabilidade estratégica torna-se essencial para mapear contratos expostos e propor ajustes que previnam disputas futuras.
Do ponto de vista federativo, há ainda a incerteza quanto à arrecadação de Estados e municípios. Com a redução gradual de tributos tradicionais e a dependência do novo modelo de partilha, tende a haver disputas políticas e jurídicas, criando insegurança para companhias que atuam em diferentes regiões. Empresas que não monitorarem as mudanças locais correm o risco de surpresas em fiscalizações ou na concessão de incentivos.
O fator mais delicado da transição é o tempo. O cronograma até 2033, que poderia ser visto como um fôlego, na verdade prolonga o período de instabilidade: em vez de trazer clareza imediata, mantém empresas e contadores sob vigilância permanente, obrigados a lidar com dois sistemas em paralelo.
Por isso, é fundamental que o período seja encarado não como um intervalo de descanso, mas como uma fase estratégica de preparação. Negócios que esperarem passivamente podem pagar mais impostos, perder competitividade e se envolver em litígios. Já aqueles que se anteciparem, revisando contratos, modernizando sistemas, treinando equipes e simulando impactos, terão vantagem competitiva.
Em suma, a verdadeira prova da reforma não está apenas no texto legal, mas no processo de transição até 2033. É nesse intervalo que se definirá se a prometida simplificação tributária será realidade ou se resultará em um sistema ainda mais oneroso. Para empresas e contadores, os próximos anos não serão de tranquilidade, mas de desafios redobrados, e a atenção estratégica será um diferencial de sobrevivência.
Fonte: Sitecontabil